sexta-feira, 14 de maio de 2010

Paixão segundo G.H.

Li esse trecho por aí...o que me motivou a fazer uma leitura mais detalhada do livro, a cada página me descubro ainda mais. Fico cada vez mais impressionada com a percepção da Clarice.


“O pré-clímax foi talvez até agora a minha existência. A outra a minha - a incógnita e anônima era o que provavelmente me dava a segurança de quem tem sempre na cozinha uma chaleira em fogo baixo: para o que desse e viesse, eu teria a qualquer momento água fervendo. Só que a água nunca fervera...O que parece falta de sentido – é o sentido. Eu já começara a ter prazer no mero planejar. Dá-me a tua mão desconhecida, que a vida está me doendo, e não sei como falar - a realidade é delicada demais, só a realidade é delicada, minha irrealidade e minha imaginação são mais pesadas...há um mal gosto na desordem de viver. E mesmo eu nem saberia, se tivesse desejado, transformar esse passo latente em passo real. Pelo prazer por uma coesão harmoniosa, pelo prazer avaro e permanentemente promissor de ter mas não gastar – eu não precisava de clímax ou da revolução ou de mais do que o pré-amor[...]. Meu grito foi tão abafado que só pelo silêncio contrastante percebi que não havia gritado. O grito ficara batendo no peito...”

Clarice Lispector


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