É uma moça que, apesar de não parecer quebrar a existência do
pensamento do presente, pertence mais ao futuro. Para ela cada dia tem o futuro
do amanhã. Cada momento do dia se futuriza para o momento seguinte em
nuances, gradações, paulatino acréscimo de sutis qualificações da sensibilidade.
Às vezes ela perde a coragem, desanima diante da constante mutabilidade da
vida. Ela coexiste com o tempo.
Ela, que é cheia de oportunidades perdidas.
Seu verdadeiro ar é tão secreto. A trama levíssima de uma teia de
aranha. Tudo nela se organiza em torno de um enigma intangível em seu núcleo
mais íntimo.
Acho que loucura é perfeição. É como enxergar. Ver é a pura loucura do
corpo. Letargia. A sensibilidade trêmula tornando tudo ao redor mais sensível e
tornando visível, com um pequeno susto e impalpável. Às vezes acontece um
desequilíbrio equilibrado assim como uma gangorra que ora está no alto ora está
no baixo. E o desequilíbrio da gangorra é exatamente o seu equilíbrio.
Ela não consegue adaptar-se ao ser humano.
A vida real é um sonho, só que de olhos abertos (que vêem tudo
destorcido). A vida real entra em nós em câmara lenta, inclusive o raciocínio o
mais rigoroso — é sonho. A consciência só me serve para eu saber que vivo às
apalpadelas e na ilogicidade (apenas aparente) do sonho. O sonho dos
acordados é matéria real. Nós somos tão ilógicos sonhadores que contamos com
o futuro. Eu baseio minha vida no sonho-acordado. O que me guia é o projeto de
amanhã vir a ser amanhã. Minha liberdade? minha própria liberdade não é livre:
corre sobre trilhos invisíveis. Nem a loucura é livre. Mas também é verdade que a
liberdade sem uma diretiva seria uma borboleta voando no ar. Mas nos sonhos
dos acordados há uma ligeireza inconseqüente de riacho borbulhante e coerente.
O estado de ser.
Nunca vi uma coisa mais solitária do que ter uma idéia original e nova.
Não se é apoiado por ninguém e mal se acredita em si mesmo. Quanto mais
nova a sensação-idéia, mais perto se parece estar da solidão da loucura.
Quando eu tenho uma sensação nova ela me estranha e eu a estranho.
Um sopro de vida. (Clarice Lispector)
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